Batuque 2011: Q-Tip

Era 1999 e fomos surpreendidos com a estória que ícones e  bandas de rap que gostávamos tocariam na cidade. Afrika Bambaata, GrandMaster Flash, De La Soul, Common, Jungle Brothers, Dj Spooky, todos no recém-criado festival DuLoco. Cruzar a cidade para chegar ao Sesc Belenzinho era um rolê, incluia se perder, descobrir o ponto de encontro ideal, e ficava fácil porque a oportunidade de ver um show desses era escassa. Antes do rap ser o novo rock, darling dos festivais e da MTV, o som enchia salões nos 4 cantos da cidade, mas encontrava apenas quem ia procurar.

Corta para 2011. Dezembro entrega sempre o presente antecipado: Duloko virou Indie Hip Hop, trouxe Jurassic 5, Talib Kwelli, Hieroglyphics, Blackalicious, Mos Def, abriu espaço para Kamau, Projeto Manada, Elo da Corrente, Black Alien & Speed, Simples, Espião, Max B.O entre outros.  Ano passado a galera que idealizou e produziu os dois festivais criou Batuque, uma continuação da trajetória, como explicou por email Rodrigo “Gorila Urbano, Mamelo Sound, P-Funk” Brandão, um dos agitadores da estória toda:

“(…) O ciclo tinha se encerrado. Ainda tava no ar a necessidade de seguir em frente c/ a missão de levar música boa, c/ estrutura digna e ingressos a preços populares pra quem gosta. Aí surgiu a idéia de ampliar a gama de estilos sem excluir o rap, pois é isso q eu sou, seria impossível deixar de fora. (…) O Indie virou uma marca forte, as pessoas estavam indo por conta da tradição ao invés da música e isso vai contra a nossa  busca. Claro q a intenção é lotar o evento mas trazer quem ama o som é a prioridade. Ter o salão lotado de gente vazia é tiro no pé a longo prazo, sabe?”

Nesse 11 de dezembro, o destino foi o Sesc Santo André ( mais fácil que o Belenzinho, acredite). No palco Q-Tip, a voz anasalada que marcou os tímpanos de quem sacudiu com A Tribe Called Quest. Com a proposta de espectro sonoro ampliada, a primeira noite teve Gui Amabis e seu lindo “Memórias Luso/Africanas”, seguido de Criolo, e Prince Paul no intervalos entre os shows. Ele também se apresentou no domingo, só que entre Bixiga 70, Don Cesão e Ogi.

Q-Tip subiu ao palco acompanhado por baixo, guitarra, bateria e toca-discos, e isso faz toda a diferença num show de rap. Além da música reverberar de outra maneira no corpo, a banda faz o alicerce para que o MC verse, cante, dê vazão ao showman que é inerente a esse tipo de intérprete, tão próprio da virada do XX-XXI. Q-TIp trouxe ao palco a bagagem que a música e a história do hip hop norte-americano carregam. Dançou, homenageou MJ, chamou moleque (fofo) para dançar no palco, fez piada, desceu para a platéia, enfim, foi o cara.

“Ele é um ícone fundamental quando o assunto é batuque digital, tanto pelo lado de pesquisador de vinil nerd (todo o tempo livre dele aqui foi passado em meio a pilhas de discos), quanto produtor e MC. É um dos caras q mais amplia as fronteiras do rap desde q apareceu, tanto nos álbuns do A Tribe quanto nas parcerias, q vão de Deee-Lite a Stevie Wonder, passando por Mark Ronson, Beastie Boys, Janet Jackson, Capleton e Speranza Spalding.” explica Rodrigo.

Quem gosta do gênero sabe que dificilmente os caras vem se apresentar com banda por aqui, porque é muito mais barato trazer combo MC+DJ do que a gangue e seus instrumentos. No retrospecto mental lembro do show do The Roots, do Mos Def na saideira do Indie, do Beastie Boys (a banda é mais rock q rap mas…), Snoop apenas agora no SWU. Aloe Blacc e Mayer Hawthorne fizeram a preza recentemente, mas assim como D’Angelo naquele distante Free Jazz, são discípulos do R&B, inexistente sem banda. Do time da casa, Criolo é um dos poucos que sobe ao palco acompanhado por músicos, e Marcelo D2 carrega a herança dos tempos de Planet, que tinha essa pegada lá atrás misturando rap e rock. Se alguém lembrar de mais shows, avise, porque a minha memória é uma porcaria. (atualização: alguém lembrou de Racionais tocando com banda. perdi esse)

Além de apresentar músicas de sua carreira solo, Q-Tip enfileirou A Tribe Called Quest: Bonita Applebum, Electric Relaxation, Scenario, e com o jogo já ganho, Can I Kick it?, Check the Rhyme. E eu, enquanto equilibrava lágrimas, agradecia pelo melhor show de 2011.

E agora, Brandão, como é que vocês vão fazer?
“Vai ser um trampo difícil manter o nível no ano q vem, de tão formoso q foi tudo: os artistas brasileiros, o clima da platéia, o set do Prince Paul, e claro, o show matador do Q-Tip!”

aguardo ansiosa o presente que vem em 2012. Longa vida ao Batuque.

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