Chapada dos Veadeiros

Na Revista de bordo da TAM do mês de maio saiu o diário de bordo da minha viagem a Chapada dos Veadeiros aqui, página 154  .

A viagem para a Chapada dos Veadeiros apareceu numa hora muito conveniente. Ou, como diriam os esotéricos locais, nada é por acaso. Segue alguns aforismos e estórias que extrapolaram as páginas da revista:

Cheguei em Brasília e segui rumo a cidade de Alto Paraíso de Goiás, base da viagem. A estrada é a BR20, federal com cara de rincão perdido no meio do país. Buracos, mão dupla, asfalto e terra juntos, e soja ao redor.

“Abril, Maio e junho tá florido, tem bastante água nas cachoeiras e não está cheio. Setembro e outubro são muito quentes, tem fumaça das queimadas (procedimento usado para limpar pastos na agricultura local), é melhor para vôo livre, inclusive é quando acontece o campeonato. O ideal é passar um mínimo de sete dias, tem que ir na cachoeira de Santa Barbara, em Cavalcanti ” contou Estevão, o guia.

O Cerrado é a Savana com maior biodiversidade do mundo pela quantidade de plantas, embora ainda não seja protegido por lei como bioma no Brasil. Carcarás e gaviões dão as boas vindas ainda na estrada.

O município de Alto Paraíso tem 10 mil habitantes e a vila de São Jorge 400/500 hab. São Jorge é a vila que fica na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e, na temporada, chega a abrigar 2000 pessoas. Alto Paraíso é o município mais próximo da entrada do parque.

(Alto Paraíso)

Mineração, pobreza extrema, esoterismo, soja. Já aconteceu de um tudo por ali. O ciclo do garimpo foi entre as décadas de 30 e 70, depois a região fez parte do “corredor da miséria”. O esoterismo veio com a (re)descoberta dos quartzos de cristal no final da década de 80 e a popularização da “energia especial” de Alto Paraíso, situada no mesmo meridiano de Machu Pichu. Os locais contam que a cada promessa de fim de mundo há uma enorme procura por terrenos e casas ali. E quando o mundo não acaba, muitos vão embora e vendem o que compraram.

A cidade já chegou a abrigar mais de 50 seitas diferentes, segundo Estevão, nosso guia e morador da cidade desde a infância. Responsável pelas grandes frases da viagem, Estevão diz um dia “é fácil pregar o desapego de Hilux e Iphone, né?”

                                                                                  (casa gota)

Até hoje Seu Pepe e Dona Ursula dão aulas de Esperanto numa pequena escola em Alto Paraíso. As comunidades esotéricas não alteraram a paisagem mas rebatizaram alguns locais. Caso do Jardim de Maytrea (abaixo), antigo Riacho Fundo, que ganhou esse novo nome por ser a “chácara cardíaca” do planeta.

 (cristais a venda na Vila de São Jorge, perto da entrada do Parque)

A entrada no Parque só é permitida até o meio dia e acompanhada por um guia, então é comum ter alguns turistas na porta do Parque esperando um grupo para se juntar. O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi criado em 1961 por Juscelino Kubitschek, teve sua área reduzida em 1972 e em 1981. Com a chegada do turismo, em 1990, ocorreu um pequeno aumento da área. A visitação é aberta apenas a uma parte da área do parque e por isso é difícil encontrar as antas, veados e lobos-guará. Só vi um tatu. Aves são variadas, sendo que o Pato Mergulhão só existe ali e na Serra da Canastra, apenas 250 exemplares vivendo em liberdade no mundo.

A trilha brilha com cacos de cristal que sobraram de antigos garimpos. O Rio Preto nasce dentro do parque, é o principal veio local e totalmente potável. São cachoeiras, canions e trilhas variadas. Em dia de garoa não se entra no rio para banho, mas dá para atravessar em alguns lugares, para lavar o rosto ou sentir o vapor que sobe com a força da correnteza que desce rapidamente

A hippielandia te abraça já no primeiro dia no local. Andando pelo parque chegamos a uma cachoeira de 120m, uma queda de água impressionante, viro para a amiga e o guia e falo “nossa, isso é o chakra cardíaco do planeta”. Oi? E desde quando uso esse vocabulário? Nunca na vida antes ou depois. Como dizia Estevão, tem coisas que não tem explicação mas que ali acontecem.
                                                                                         Estevão, o guia
Além do Parque Nacional, fazendas, cachoeiras e esportes de aventura compõe os passeios na região.
Tem o Vale da Lua, uma formação rochosa ao pé da Serra do Segredo, famoso cartão postal local.
O Raizama é uma comunidade-fazenda que também tem pizza, blues, shows e música eletrônica durante a temporada. E o festival Moonstock.
Há o charme dos locais. Um deles é Waldomiro, ex-tropeiro que serve em seu restaurante/tapera a Matula, a comida que consumiam quando iam levar a tropa de um ponto a outro do país. Mistura carne seca, carne de lata, lingüiça e é acompanhada de farofa, feijão, salada e mandioca. Ele também vende cachaças e doces produzidos artesanalmente.
Seu Waldomiro conta que nasceu na fazenda Paraíso, onde nasceram seu pai, seu avô, seu bisavô. Tem ascendência portuguesa, africana, polonesa e indígena. Morou na Fazenda Estrela e hoje mora na Fazenda Salto. Ele conta que o nome da cidade de Alto Paraíso tem a ver com a Fazenda Paraíso que hoje nem existe mais.
Seu Dimas, hoje com 95 anos, conta que antigamente ali era uma vila nomeada Veadeiros, por conta da caça aos veados. Naquela época caçar veado era profissão por conta do couro, veadeiros era o nome do cachorro local, como o perdigueiro. A vila foi fundada em 1750 e era ponto de parada de bandeirantes. Em 1953 a vila se emancipou e se tornou município como veadeiros – que virou piada – e naquela época ainda existia a fazenda, que dava suporte as tropas e comitivas. Em 1963 um plebiscito decidiu o novo nome.
As plantas do Cerrado tem alto valor medicial: O própolis aqui é melhor que em vários lugares, garantiu um alemão que se mudou de mala e cuia e hoje tem apiários em vários pontos do Brasil. O sucesso local continua graças as plantas terapêuticas, massagens e afins.
No final de julho acontece o festival de culturas tradicionais do Brasil, juntando de índios da região a povos da Amazônia.

Em 11 de agosto acontece a festa de Nossa Senhora da Abadia no quilombo que resiste até hoje próximo a Alto Paraíso. Mara, uma das donas da agência de turismo, contou que os quilombolas permaneceram na área sem contato com o mundo exterior até meados da década de 60, acreditando que se saíssem dali seriam recapturados e feitos novamente escravos.

Serviço:

Travessia – 62.34461595 (agência de turismo, falar com Mara)

Pousada Recanto da Grande Paz – 62.34461452

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