Para ver em tela cheia: Nicolas Jaar e Sergei Parajanov

Nicolas Jaar, menino prodígio da música eletrônica, newyorker, criou uma trilha original para o filme “The Color of Pomegranates” (as cores das romãs, em tradução livre).

O filme, lançado em 1969 e originalmente falado em armênio, é considerado uma das grandes obras do século XX, dirigido pelo russo Sergei Parajanov, que ao invés de contar a vida do poeta armênio Sayat Nova, transpõe seu universo interno para a tela.

Para ver em tela cheia

 

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#precisamos falar sobre aborto : agora mais ainda.

uma amiga aos 14, numa clínica.
uma amiga aos 17, com remédio.
uma amiga aos 22, numa clínica.
uma colega de trabalho, por volta dos 35 anos, numa clínica.
uma amiga aos 32, numa clínica.
uma amiga aos 40, numa clínica.

Essa cronologia que acompanhei até agora. Sigo contando.

 

Comecei a escrever esse post quando a revista TPM lançou a campanha #PrecisamosFalarSobreAborto na edição de novembro de 2014. Do editorial da revista a colunista, artistas, médicos, juízes, mulheres e homens refletem sobre os números, as mortes, as leis que desrespeitam, os absurdos do sistema.

Antonio Prata, Tati Bernardi e Camila Appel dedicaram colunas ao assunto na época. Gustavo Chacra apontou que nos EUA, onde o aborto é legal, o número de procedimentos é menor do que no Brasil. ” …Os EUA, onde o aborto é legalizado, há 730 mil por ano. Isso em uma população de 320 milhões. No Brasil, onde o aborto é ilegal, foram 850 mil em uma população de 200 milhões. Isto é, nos EUA há um aborto para cada 438 habitantes. No Brasil, um para cada 235. A taxa de aborto no Brasil é quase o dobro da taxa dos EUA, apesar de a prática ser proibida no território brasileiro e legalizada no americano.(…)”

A realidade brasileira promove socos na barriga, quedas propositais, inserção de agulhas de tricot e venda de remédios batizados. São as saídas para quem não pode pagar uma clínica. Essas não garantem a segurança de ninguém, como os casos de Elisangela Barbosa e Jandira Cruz comprovaram.

A verdade comum é que não tem lei ou falta de recurso que impeça aquela que quer fazer o aborto de fazê-lo.

Em conversa com o juiz José Henrique Torres aproveitei para perguntar sobre o futuro da pauta no Brasil. O juiz considera inconstitucional a criminalização e falou que o primeiro passo para que a descriminalização aconteça é conseguir que os casos de aborto previstos na lei sejam realizados. Apenas 16 unidades dos hospitais públicos realizam o procedimento.

Vice deu voz a Clandestinas, filme de Renata Correa e Fhadia Salomão. O filme pode ser visto aqui.  Em recente texto defendendo o direito de escolha da mulher, Renata conta : “Esse documentário foi muito bem recebido em alguns países da Europa, … A pessoa mais curiosa era um juíz francês, que ficou muito impressionado que em um País laico e democrático como o Brasil as mulheres não pudessem interromper um processo gestacional se assim fosse sua vontade. Que para ele, ter direito sobre o próprio corpo era um dos pilares da civilidade. Expliquei que o Brasil apesar de laico na teoria era um país de influência católica e cristã muito forte, e que existiam bancadas religiosas no parlamento com muito poder e influência. Ele ficou muito impressionado, e comparou a situação das mulheres brasileiras à Sharia, que é quando os países islâmicos abandonam o sistema político e jurídico para usar o Alcorão como único livro das leis. Como se aqui no Brasil se extinguissem o código civil, penal, a constituição e usássemos como parâmetro apenas a Bíblia. No início achei um exagero, mas na prática somos legislados por aqui mais por preceitos morais e religiosos do que pela lei de fato – assim como mulheres islâmicas que vivem sob a Sharia não podem sair na rua sem um acompanhante masculino, e nem devem frequentar escolas ou qualquer instituição de ensino formal, no Brasil devemos nos submeter à uma legislação atrasada que coloca nossas vidas em risco.”

O Uruguai legalizou o aborto. Na Colômbia, Cristina Villareal cuida e facilita a vida de mulheres que querem abortar. No Brasil seguimos em uma lista ao lado de países como Irã, Afeganistão, Irlanda e Líbia. Prendemos uma garota de 19 anos que, ao ser atendida por um hospital público devido a um aborto via remédios, foi denunciada pelo médico.

Como coloca Claudia Colucci em sua coluna ” A questão é que, enquanto o problema é do outro, o que não faltam são os linchadores de plantão. Mas, quando se trata de uma experiência pessoal com a gravidez indesejada, grande parte das pessoas entende que a situação justifica o aborto.”

Tal qual o Vaticano que pressiona as clínicas autorizadas a não atenderem as mulheres que necessitam do procedimento, a câmara dos deputados, chefiada por Eduardo Cunha, promete não deixar a pauta seguir. Por deus alienamos a mulher do direito `a vida.

Por isso precisamos falar sobre o aborto. O karma é meu, o corpo é meu.

A lei, de quem é?