Rolezinho Reloaded

Sempre me encantaram os Gonzagas, o inha e o ão, “minha vida é andar por esse país”.

Esse país, esses países, descobrir o globo grande e pequeno que pode ser o mundo. Redondo. Andar por aí, câmera na mão observando pessoas, lugares, histórias.

De rolê.

Rolezinho foi uma coluna de curta vida no portal Vírgula. Foram passeios incríveis: o pianista Vítor Araújo tocando no alto do Edifício Martinelli (SP), o fotografo Felipe Morozini contando da sua relação com o Parque Minhocão (SP) , o ator Paulo Vilhena acompanhando o Greenpeace no Senado Federal (Brasília, e o prédio com peso de podre no ar).

Se a coluna parou, os rolês não pararam. Eu não paro, insisto. Gravo, passeio, converso, edito. Lugares, livros, pessoas, histórias. Ai resolvi voltar, rolezinho reloaded.

os dois primeiros que publico hoje são curtos.

O primeiro é um experimento, procurava uma vinheta, usei um caminhar de sapatos lindos do Studio Dani Cury. Sapatos para te levar a qualquer lugar hora momento, de salto de sola de borracha de couro, feito`a mão.  Pra caminhar é necessário sapatos confortáveis. Ou grossas solas nos pés

 

Era domingo dia das mães. Tem quem ame a data, quem odeie, quem deixe passar.

Para quem, como eu, já não tem mãe viva em terra, parece um dia meio sem sentido, fora do tempo. Fui passear.

Queria conhecer o Disjuntor, na Mooca (SP) , havia tempo. Reduto de resistência artística, política, de bons pensamentos. Mistura de galeria, bar e restaurante, pista e espaço de convivência. Criado pela dupla Mozart Fernandes e Monica Rodrigues, da Vértices Cenografia,  em parceiria com Tatá Crippa, que é O cara do lowrider e morador do bairro.

O Disjuntor integra o Distrito Mooca. Galpões e fábricas antigos, lindos e vazios que estão sendo transformados em locais de lazer e gastronomia, em busca de revitalizar e trazer mais gente `a área.

O dia de rolezinho Disjuntor teve Flash Tattoo;  Mauro Farina, da Freebeats, tocando delícias, entre elas o Rework em cima do Afro-Sambas que é a trilha do vídeo;  comes e bebes com Checho Gonzales e Sommelier Itinerante; e muita conversa com Monica, de quem brilham os olhos quando fala do Disjuntor, suas ideias, suas oficinas.

Fica ligado no calendário e aproveita para conhecer.

Uma pequena virada

” – você vai na Virada?

– Ah, eu não consigo, acho que é corroborar com essa prefeitura e esse governo que são toscos, que largaram a cidade. É comprar o discurso deles de que tudo está bem quando na verdade não está. Fora que eles exploram ao máximo quem trabalha, ouvi dizer inclusive que segurança e limpeza tem que trabalhar um turno de 24hs direto…. ”

e foi com essa conversa com uma amiga na última 5afeira que comecei a pensar em não virar esse ano.

Gosto de festa na rua mas esse ano estava especialmente preguiçosa. Acabou que a virada começou na varanda de casa.

A amiga foi visionária e acertou sobre a prefeitura apresentar uma situação que não sustenta. Fazer festa sem organizá-la direito dá pau seja no salão do prédio ou no centro da cidade. O problema não é xixi na rua ou gente bêbada, porque festa de rua aqui, em Paris ou em qualquer lugar acontece a mesma coisa. O problema é não dar estrutura para quem trabalha ou quem curte o evento.

Acordei no domingo e mesmo com a estória da galinha depenada  – e eu que só queria saber da sopa de cebola do Jacquin, fiquei sem notícias – juntei-me a uma turma para tentar nas barraquinhas de chefs no Minhocão e quem sabe assistir alguma coisa. A parte gastronômica foi, em todos os horários, a melhor idéia mal realizada do evento.

Primeiro porque o acesso ao local dificulta o abastecimento das barracas. Depois porque o espaço é pequeno o que promove a concentração, os esbarrões, as filas e o tamanho reduzido das barracas. E terceiro, depois do Mercado, ficou claro que além de comida de rua ser um amor do paulistano, eventos com boa comida e preços camaradas atraem muito público.

Tenho que isso reflete também a falta de paciência e verba pra custear almoço de muitos reais todo dia, ninguém mais aguenta pagar caro sempre que quer comer. Mas voltemos a festa…

Lotação, filas e sushi no sol fizeram a gente fugir e cair pro Sujinho da Rio Branco. O caminho era composto por bons ecos de shows que aconteciam no horário. A deprê pela cidade largada e pela Rua dos Gusmões e Guaianeses e seus mortos vivos continua, mas acho interessante sempre essa convivência.

Depois de uma farta refeição no Sujinho da Rio Branco, que agora aceita cartões (!!!), seguimos em direção a Julio Prestes. Na 6afeira já sabia que nem Toots & Maytals nem Abyssinians se apresentariam e que chamaram o Rockers Control + Dubversão para tocar no lugar.

Foi delícia. No caminho o sol esquentava e prometia um belo fim de tarde. Chegar na Julio Prestes e sentir o clima “in a dubwise style” fizeram-me pensar na sorte da prefeitura em governar essa cidade. O sorriso das pessoas, crianças correndo, gente dançando, pastel e caldo de cana, a pelada acontecendo na área que se formou da ex-cracolândia demolida faziam acreditar numa cidade possível.

Brother Culture, MC inglês e parte da família RC , teve sua passagem emitida na 5afeira, voou sábado depois de se apresentar em Londres na 6afeira, chegou domingo de manhã, foi pra rua se juntar ao Dubversão e a tarde on stage de novo pro Rockers. Saúde e disposição musical a gente vê por aqui.

Ficamos ali até Gil encerrar a festa. Show delicioso com seus clássicos (Realce, Palco, Andar com Fé), ele de crooner de Bob Marley (No Woman no Cry e Is This Love) e forrós de Jackson do Pandeiro e outros para dançar juntinho. Ele showman que aos 70 rebola e comanda todos no palco. Do bolso ele saca “Nos Barracos da Cidade” (Dia Dorim Noite Neon, 1985) em meio a todas as reviravoltas da virada, e “Punk da Periferia”(Extra, 1983) em que as letras escorriam pelos ouvidos contaminados pelo rolê zumbis da cracolândia.

 

Saída de metrô a direita para voltar para casa e a lembrança das palavras de Sérgio Vaz, que esteve na virada com sua Cooperifa. “São Paulo é uma mulher feia, e como toda feia trepa bem pra caralho”. As vezes acho que essa prefeitura se aproveita disso.

A Turquia é aqui

andando pela vila madalena, um grupo de três turcos parou para pedir informação…

Eles eram alguns dos artistas que vão se apresentar até o fim do mês no SESC, que promove um intenso intercâmbio com Istambul.


Procurei Talita Miranda, uma das envolvidas, para saber mais do festival. Olha o que ela disse:

1) Como nasceu o festival?
Talita Miranda: Ilhan (do Nublu) e eu já pensamos há uns três anos na idéia de trazer Istambul ao Brasil de alguma forma por causa da riqueza histórica e relevância artística contemporânea. Ilhan viveu a infância indo pra lá e toca com os músicos turcos a anos, então essa vivência sempre foi presente nele e no Nublu, onde sempre convivi muito. Sempre quisemos trazar o aspecto artístico independente das questões mais enraizadas na política ou economia. Levamos a idéia ao SESC e eles abraçaram o projeto.

2) Qual sua relação com a cidade de Istambul?
TM: é uma relação de grande afeto e curiosidade. Istambul é um lugar de riquíssima história, num ponto único. Convivo com turcos faz anos e tenho grandes amigos artistas ali. As idéias em relação a artes visuais e música surgiram nessa ponte, pensando em desfazer estereótipos e olhar a cultura como ela é…com tantas etnias em uma só coisa.

3) Você consegue fazer algum paralelo entre SP e Istambul?
TM: Existe um comparativo entre essas duas cidades caóticas, conturbadas e ao mesmo tempo muito culturais, com pessoas querendo olhar para o mundo. São cidades que simbolizam um pólo multidisciplinar e internacional também. É claro que estamos falando de pontos geográficos muito distintos e com religiões diferentes…e artes diferentes. Ambos países eram considerados de terceiro mundo há pouco tempo e estão em uma nova relação de poder e economia que afeta a expressão artística, principalmente dos jovens.

4) Teatro, fotografia, arte, música, tudo isso está presente no festival. O que chama a sua atenção na produção cultural turca?
TM: A mescla entre tradicional, folk, regional com o novo e contemporâneo, a mistura de oriente e ocidente junto com elementos religiosos. Claro que em qualquer lugar o que é contemporâneo propõe e expressa a memória de gerações com uma releitura, mas o diferencial é que na cultura deles isso deriva de uma miscelânea de etnias e códigos que tratam de inclusão, imigração, religião, vida urbana, Europa e Ásia.

Cola lá!

clareando a nova luz

No dia em que um PM puxa arma para um estudante na USP

é bom pensar em que tipo de cidade você quer morar e qual o Estado que te governa.

Texto incrível de Sírio Possente, publicado no Estado sobre Kassab . Começa assim : “Kassab é um dos fenômenos mais intrigantes das últimas safras de políticos. Se não gastasse um dos maiores orçamentos do País, passaria despercebido. Consta que é bom na movimentação de bastidores. Antes de ser vice de Serra na Prefeitura de São Paulo, certamente o maior troféu “movimentação nos bastidores” dos últimos tempos, ninguém, exceto poucos parceiros, sabia dele.”

Documentário sobre o que está acontecendo no bairro da Luz, em SP:

 

 

NOVOS DIAS – SÉRGIO VAZ


“Este ano vai ser pior…
Pior para quem estiver no nosso caminho.”

Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões.
Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os Erros são teus, assuma-os. Os Acertos Também são teus, divida-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade ? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As Manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!

*do livro “Literatura, pão e poesia”  Global Editora

A vida é um moinho e a favela foi pulverizada

na Wikipedia “… moinho é uma instalação destinada à fragmentação ou pulverização de materiais em bruto especificadamente grãos de trigo ou de outros cereais, por meio de mós é cada uma do par de pedras duras, redondas e planas, com as quais, nos moinhos, se trituram grãos de trigocevadacenteio e outros, até se reduzirem a farinha…”

….”fragmentação ou pulverização ” … será que esse é o destino da população que vivia na favela do Moinho, a última na região central da cidade?

A foto que abre esse post foi tirada durante o primeiro “A Vida é um Moinho”, que aconteceu em agosto de 2010. Shows e atividades organizadas por amigos da favela buscavam ajuda para os moradores, e também chamar a atenção quanto aos recorrentes problemas de “corte de água” que aconteciam como maneira de pressionar quem vivia ali a sair do local.

No final de 2011 um incêndio  consumiu todos os barracos deixando mais de mil pessoas desabrigadas e matando duas outras. A prefeitura obteve liminar para demolir o prédio que existe no terreno por “risco de desabamento”. O prédio não pôde ser implodido antes porque o terreno pertence à União e a prefeitura teve que aguardar a autorização judicial para o trabalho.

A vista do alto do prédio, um esqueleto que sobrou das industrias Matarazzo, era bonita e triste como o centro da cidade. Quando estive no local, pensei se aquilo não podia ser aproveitado para criação de  um centro cultural e um prédio de apartamentos populares para abrigar quem morava ali. Há um belo silo remanescente no terreno e que agora sabe-se lá para onde vai. Assim como as pessoas que lá moravam.

O pitoresco dessa história é que a demolição foi marcada para esse domingo, primeiro de janeiro. E não funcionou. O prefeito de SP comemorou a implosão de um prédio que dizia-se estar condenado mas que cinco dos seus seis andares continuaram de pé diante de 800kg de explosivos.

Uma série de vídeos com diferentes ângulos da explosão estão disponíveis no YouTube. Todos tirando sarro da falha. E Kassab, o prefeito que cuida e ama a cidade de uma forma tão particular, é o único que comemora.

 

A revista Rolling Stone publicou uma matéria em maio do ano passado sobre “Intimidações armadas, desapropriações truculentas e incêndios suspeitos se tornam as ferramentas da desenfreada especulação imobiliária para banir as favelas de São Paulo

anoitece no parque

As últimas vezes que fui ao Ibira, como carinhosamente é chamado o Ibirapuera entre quem mora em SP e passeia por lá, era noite.

até hoje me pergunto quem era esse maluco correndo num domingo chuvoso a noite…mas era eu também maluca, andando sozinha pelo parque aquela hora

uma linda e diferente perspectiva desse espaço da cidade. Fazia silêncio, ao contrário da costumeira algazarra do dia. Havia uma projeção marcada no Planetário onde Joakim, dj e produtor francês, apresentaria sua performance Planetarium com projeções do local…tinha de rolar escuro absoluto, então a única imagem é da sala na hora que abriu. Mas foi incrível, a apresentação, o rolê e andar no parque naquele horário.


Quase dois meses depois foi a vez de um festival de Jazz ser generoso o suficiente para trazer diversas atrações numa apresentação paga na 6afeira e gratuita no domingo a noite

Sharon Jones and The Dap-Kings salvaram meu domingo e encantaram o de muita gente. Foi uma apresentação deliciosa, mas além disso, a parte de trás do auditório Ibirapuera que se abre ao parque e permite espalhar a música a quem passa por lá é uma das melhores obras do Niemeyer. Pelo menos para mim.

A turma chegou cedo, fez piquenique e depois ficou lá, curtindo o show. Aí, fechando a incrível e dançante apresentação, tem um filme.

Aquele espaço nasceu para isso.

Para ser tela e palco de shows e projetos noturnos para quem vive nessa cidade e é tão carente de oportunidades como essa, de confraternizar com ela: Tinha lua, tinha todo tipo de gente ali, curtindo. É para querer cada vez mais esse tipo de evento no parque. Aguardo um calendário fixo de shows, filmes e outras estórias noturnas por ali.

*ps: e logo na seqüência voltei ao Ibira para a SPFW, mas aí fica para outro post…