Livro: O Buda no Sotão

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O Buda no Sotão“, de Julie Otsuka, conta a história das mulheres japonesas que imigram para os Estados Unidos na primeira metade do século XX. Narrado pela voz de todas as viajantes e de cada uma delas, a transição constante entre universal e singular cria um bordado de medos, desejos e curiosidades familiares até a quem não atravessou o Pacífico para conhecer um marido e começar uma vida e uma família.

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O livro poderia ser dividido em duas partes, uma primeira focada na chegada e adaptação das personagens e a segunda na mudança que a guerra provoca em suas vidas. Elas contam sobre os campos de concentração para japoneses nos Estados Unidos durante a 2a Guerra Mundial. Em 1942, o presidente Franklin D. Roosevelt autorizou a remoção dos nipônicos e seus descentedentes para locais fora da costa. Como os norte-americanos não são lá muito bons em lidar com seus erros, a história é pouco divulgada e foi um dos motores para a escritora fazer o livro, como ela conta nessa entrevista.

Livro para se ler a qualquer momento, “O Buda no Sotão” já foi traduzido em mais de quinze idiomas e ganhou, em 2012 ano de sua publicação, o prêmio PEN/Faulkner

Homem Lento, J.M. Coetzee

“A câmera, com seu poder de captar luz e transformá-la em substância, sempre lhe pareceu mais um aparelho metafísico do que mecânico. Seu primeiro trabalho de verdade foi como técnico de câmara escura; seu maior prazer estava sempre no trabalho no escuro. Quando a imagem fantasmagórica aparecia debaixo da superfície do líquido, quando veias escuras no papel começavam a se juntar e ficar visíveis, ele às vezes experimentava um arrepio de êxtase, como se estivesse presenciando o dia da criação.”

“Eros. Por que a visão do belo chama Eros à vida? Por que o espetáculo do horrendo estrangula o desejo? Será que a relação com o belo nos eleva, nos torna pessoas melhores, ou será abraçando os doentes, os mutilados, os repulsivos que melhoramos nós mesmos? (…)”

 

Ganhei Coetzee de presente de aniversário. Viajei com ele e ele quase não volta. Uma prosa que flui tão deliciosamente e uma história que se encaixa de maneira surpreendente. Livro do tipo que você não quer parar de ler.

Paul Rayment sofre um acidente e perde a perna. Um senhor solitário e rabugento, morando na Austrália, aficionado por fotografia. Sua recuperação poderia enveredar por um enredo enfadonho ou piegas, mas no olhar desse bom escritor é apenas no começo de uma história com inúmeras surpresas. Na receita, uma família croata, uma escritora desvairada e muita sensibilidade ao olhar os esforços e as limitações de cada pessoa.

Pertencer, não pertencer, caminhar, parar, todas as questões universais estão colocadas belamente nesse livro que fala de amor, de sonhos e realizações, de solidão e de limitação.

Capitães da Areia, um reencontro

Reli Capitães da Areia, livro de Jorge Amado, numa viagem recente.

Ao contar a vida de rua em Salvador através de um grupo de meninos que vivem de aplicar golpes e furtos o escritor transforma leitores em cúmplices e comparsas nas aventuras. Moradores de um trapiche abandonado, o bando chefiado por Pedro Bala encanta e perturba.

As situações descritas no livro de 1937, que chegou a ser proibido dois anos depois de sua publicação, se assemelham à atual dos menores na mesma condição.  A situação de abandono, raiva, abuso de autoridade permanecem iguais. só mudou a inocência do mundo. Isso não tira o delicioso sabor da história que envelheceu muito bem.

“Seu vulto desapareceu no areal.Professor ficou com as palavras presas, um nó na garganta. Mas também achava bonito Boa-Vida andar assim para a morte para não contaminar os outros. Os homens assim são os que têm uma estrela no lugar do coração. E quando morrem o coração fica no céu, diz o Querido-de-Deus. Boa-Vida era um menino, não era um homem. Mas já tinha uma  estrela no lugar do coração. Já desapareceu o seu vulto. E então a certeza de que não mais verá seu amigo encheu o coração do Professor. A certeza de que o outro ia para a morte.”

O livro é meu preferido do autor, recomendo a leitura sempre. Ano passado virou filme, trailer aqui.

A alma imoral

” Um dos ensinamentos chassídicos mais interessantes é o que aponta para quatro comportamentos do corpo diante das exigências da alma. Esse ensinamento, (…), isola um episódio paradigmático do momento de encontro dos interesses do corpo e da alma: a saída dos hebreus do Egito. Por tratar-se de um símbolo de movimento ativo para deixar a escravidão rumo à liberdade, (…) o Egito é, acima de tudo, um símbolo, por representar um lugar que “já foi bom” e deixou de ser. (…) a etmologia hebraica da palavra Egito – mitsraim – quer dizer “lugar estreito”.

Todos nós deparamos com lugares que se tornam estreitos em determinados momentos. (…) outrora serviram para nosso desenvolvimento e crescimento, se tornam apenados e limitadores.  (…) o processo de saída esbarra num limite tão real e profundo como o mar. Arrependido por ter permitido a saída dos hebreus após sofrer dez pragas diferentes, o faraó os encurrala junto ao mar. Entre o exército mais poderoso do mundo de então e o mar, os hebreus se voltam ao líder Moisés em desespero. O que fazer?

(…) ocorre um processo semelhante com o corpo. O corpo não gosta de sair, de mudar. São a estreiteza e o desconforto que o convencem que não existe outra saída. Mas para onde ir se o corpo não conhece nada diferente de si mesmo? A alma, imoral em sua proposta de desalojamento do corpo, impõe uma caminhada que para o corpo acaba por ser um enfrentamento com uma barreira aparentemente intransponível. Como seguir rumo à “terra prometida”, ao futuro, se entre o presente e ela existe um fosso, um mar, absoluto. O corpo então questiona a sensatez da alma. Os portões do passado se fecham, os do futuro não estão abertos e o corpo experimenta a mais temida das sensações – o pânico de se extinguir.

Encurralados diante do mar, o povo, representativo do corpo, assume algumas posturas possíveis. (…) Sem saber como proceder, o povo se divide em quatro acampamentos. O primeiro quer voltar, o segundo quer lutar, o terceiro quer jogar-se ao mar, o quarto se mobiliza em oração.

(…) essas quatro posturas representam resistências do corpo. A própria idéia de acampar é, em si, uma forma de “empacar”. Aquele que propõe o retorno reconhece o poder do lugar estreito. Esse lugar do hábito é tão poderoso que foi uma ilusão se deixar levar pelo sonho de sair. Tudo estava errado desde o início e a proposta de voltar pressupõe uma vida estreita e em conformidade com a realidade e as limitações que esta impõe.

Lutar, por sua vez, é a crença de que se poderá fazer do próprio lugar estreito um lugar mais amplo. Se o lugar estreito é poderoso para impor-se como realidade, o que resta é desafiá-lo, como se a estreiteza fosse externa e não um processo de relação entre o mundo externo e o interno. (…) o lugar estreito um dia não o foi.

Jogar-se ao mar é a atitude do desespero. É a entrega do corpo na descoberta que a alma propiciou um limbo insuportável em que não há mais passado que o definia nem lhe é permitido um novo futuro que o redefina. Na busca de um novo “bom”, não se encontra um novo “correto” e a única saída é pagar o preço de não se ter bancado o “correto” do passado mesmo que o “bom” fosse inadequado. Desse desespero surge a resignação de que, apesar de não se voltar ao lugar estreito, jamais se poderá atingir um novo lugar amplo.

Orar é um recurso de fazer da situação do “novo” uma reprodução do lugar estreito. Numa aparente resolução das demandas da alma, o corpo exige que a realidade seja “compassiva” com ele, permitindo que o novo lugar não exija dele uma nova definição de si. O novo lugar é o velho sem parecer-lhe estreito (…)

A beleza da interpretação chassídica (…) a reação de Moisés (…): “E disse Moisés ao povo: (1) Não temais, ficai e vede a salvação do Eterno; (2) porque os egípcios que vedes hoje não volvereis a vê-los nunca mais; (3) o Eterno lutará por vós e (4) vós vos calareis.” (Ex.14:13)

(…) temos aqui uma resposta aos quatro acampamentos (…) Nenhum dos acampamentos representa o futuro e a saída. Todos eles são variações sobre a hesitação e a vacilação. São, na realidade, a fronteira onde um corpo morre para renascer com uma mesma alma em outro corpo – do outro lado da margem.

(…) A resposta de D’us às vacilações (…) é igualmente decisiva e intrigante (Ex.14:15): “Diga a Israel que marche.” (…)

Conhecemos o final do relato bíblico em que o mar se abre. Mas, para o Midrash – comentários alegóricos dos rabinos – a abertura do mar se dá de uma maneira muito peculiar. Um homem (…) que não sabia nadar, começou a adentrar as águas. Estas, no entanto, não se abriram num primeiro instante. Somente quando o homem já estava com a água no nível do nariz, as águas se abriram.

(…) O futuro existe se vocês marcharem. O futuro, porém, não está ligado ao presente pelo corpo. A alma guiará o caminho seco por meio do molhado, de um corpo a outro ou de uma margem a outra. Saber abrir mão desse corpo na fé de que outro se constituirá é saber dar o passo que leva até onde “não dá mais pé”. Enquanto der pé, estaremos estacionados em acampamentos.”

( in: A Alma Imoral, Nilton Bonder)

terminei esse livro, A Alma Imoral, só agora, depois de quase um ano de idas e vindas.

O que escrever sobre um livro que é forte e preciso mas que precisa também de um leitor aberto a ler suas idéias?

Copiei esse trecho que gosto muito.

Traições e transgressões, nudez e vestir-se, alma e corpo, filosofia e o homem. Se isso te interessa, imperdível.

Livros: Bilhete Seco

Elisa Nazarian é escritora, tradutora e preparadora de texto. É mãe do também escritor, Santiago Nazarian. é autora de Bilhete Seco, livro que saiu pelo Ateliê Editorial, livro que acabei de ler e que traz o cotidiano em contos que falam de solitude e solidão, de presenças e ausências, de perdas e memórias. “Bilhete Seco” […]

A Casa das Belas Adormecidas

“Tratar com brutalidade uma garota como essa poderia despertar nele o vigor da juventude. De certa forma, Eguchi já estava um pouco entediado com a casa das “belas adormecidas”. Apesar disso, suas visitas de tornavam mais freqüentes. Tratar a garota com violência, quebrar o tabu da casa, destruir o miserável elixir dos velhotes e, dessa forma, afastar-se em definitivo desse lugar; labaredas de sangue quente impeliam Eguchi. No entanto, não havia necessidade de violência ou força. Era certo que o corpo adormecido da garota não ofereceria resistência. Certamente, seria fácil estrangulá-la e matá-la. Mas a tensão desapareceu de súbito, e Eguchi sentiu apenas um vazio sem fim ampliar-se no seu âmago. Não muito distante, ouvia-se o estrondo das grandes ondas do mar, pois não havia vento em terra. O velho imaginou a profundidade do mar sem luz em noite escura. Apoiou-se no cotovelo e aproximou o rosto da face da garota. Ela respirava pesadamente. Desistiu de beijar sua boca e deixou-se cair.”

 

 

Publicado originalmente em 1961 “A Casa das Belas Adormecidas” , de Yasunari Kawabata, traz um universo de poesia e desilusão. Nascido em 1899, Kawabata ganhou prêmio Nobel em 1968 e suicidou-se em 1972. Esse foi o primeiro livro dele que tive contato, e na primeira tentativa de leitura, empacou. Cru e suave, é preciso estar preparado para o mundo que Kawabata conta.

O romance gira em torno de uma casa onde homens velhos vão para deitar-se ao lado de mulheres adormecidas que não acordam jamais. Eguchi, nosso guia, experimenta o prazer, a clareza, a senilidade e a dificuldade impostos pelo tempo.

Sua escrita impõe verdades as vezes difíceis de se acompanhar. Eguchi envelhece mas coloca o peso do tempo nos outros.  A japonice de Kawabata é marcante e atraente: as questões de honra, o limite da sociedade hiper controlada, os desejos humanos que não acompanham o desenvolvimento de seu corpo, tudo lá de uma maneira pertinente. E a estória vai além dessa vã filosofia minha de 4 linhas.

 

Para quem está aberto a se deparar com beleza e tristeza, é um bom livro.

NOVOS DIAS – SÉRGIO VAZ


“Este ano vai ser pior…
Pior para quem estiver no nosso caminho.”

Então que venham os dias.
Um sorriso no rosto e os punhos cerrados que a luta não para.
Um brilho nos olhos que é para rastrear os inimigos (mesmo com medo, enfrente-os!).
É necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras.
Não aceite nada de graça, nada. Até o beijo só é bom quando conquistado.
Escreva poemas, mas se te insultarem, recite palavrões.
Cuidado, o acaso é traiçoeiro e o tempo é cruel, tome as rédeas do teu próprio destino.
Outra coisa, pior que a arrogância é a falsa humildade.
As pessoas boazinhas também são perigosas, sugam energia e não dão nada em troca.
Fique esperto, amar o próximo não é abandonar a si mesmo.
Para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade.
Quer saber quem são os outros? Pergunte quem é você.
Se não ama a tua causa, não alimente o ódio.
Por favor, gentileza gera gentileza. Obrigado!
Os Erros são teus, assuma-os. Os Acertos Também são teus, divida-os.
Ser forte não é apanhar todo dia, nem bater de vez em quando, é perdoar e pedir perdão, sempre.
Tenho más notícias: quando o bicho pegar, você vai estar sozinho. Não cultive multidões.
Qual a tua verdade ? Qual a tua mentira? Teu travesseiro vai te dizer. Prepare-se!
Se quiser realmente saber se está bonito ou bonita, pergunte aos teus inimigos, nesta hora eles serão honestos.
Quando estiver fazendo planos, não esqueça de avisar aos teus pés, são eles que caminham.
Se vai pular sete ondinhas, recomendo que mergulhe de cabeça.
Muito amor, mas raiva é fundamental.
Quando não tiver palavras belas, improvise. Diga a verdade.
As Manhãs de sol são lindas, mas é preciso trabalhar também nos dias de chuva.
Abra os braços. Segure na mão de quem está na frente e puxe a mão de quem estiver atrás.
Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira.
O Ano novo tem cara de gente boa, mas não acredite nele. Acredite em você.
Feliz todo dia!

*do livro “Literatura, pão e poesia”  Global Editora