A vida é um moinho e a favela foi pulverizada

na Wikipedia “… moinho é uma instalação destinada à fragmentação ou pulverização de materiais em bruto especificadamente grãos de trigo ou de outros cereais, por meio de mós é cada uma do par de pedras duras, redondas e planas, com as quais, nos moinhos, se trituram grãos de trigocevadacenteio e outros, até se reduzirem a farinha…”

….”fragmentação ou pulverização ” … será que esse é o destino da população que vivia na favela do Moinho, a última na região central da cidade?

A foto que abre esse post foi tirada durante o primeiro “A Vida é um Moinho”, que aconteceu em agosto de 2010. Shows e atividades organizadas por amigos da favela buscavam ajuda para os moradores, e também chamar a atenção quanto aos recorrentes problemas de “corte de água” que aconteciam como maneira de pressionar quem vivia ali a sair do local.

No final de 2011 um incêndio  consumiu todos os barracos deixando mais de mil pessoas desabrigadas e matando duas outras. A prefeitura obteve liminar para demolir o prédio que existe no terreno por “risco de desabamento”. O prédio não pôde ser implodido antes porque o terreno pertence à União e a prefeitura teve que aguardar a autorização judicial para o trabalho.

A vista do alto do prédio, um esqueleto que sobrou das industrias Matarazzo, era bonita e triste como o centro da cidade. Quando estive no local, pensei se aquilo não podia ser aproveitado para criação de  um centro cultural e um prédio de apartamentos populares para abrigar quem morava ali. Há um belo silo remanescente no terreno e que agora sabe-se lá para onde vai. Assim como as pessoas que lá moravam.

O pitoresco dessa história é que a demolição foi marcada para esse domingo, primeiro de janeiro. E não funcionou. O prefeito de SP comemorou a implosão de um prédio que dizia-se estar condenado mas que cinco dos seus seis andares continuaram de pé diante de 800kg de explosivos.

Uma série de vídeos com diferentes ângulos da explosão estão disponíveis no YouTube. Todos tirando sarro da falha. E Kassab, o prefeito que cuida e ama a cidade de uma forma tão particular, é o único que comemora.

 

A revista Rolling Stone publicou uma matéria em maio do ano passado sobre “Intimidações armadas, desapropriações truculentas e incêndios suspeitos se tornam as ferramentas da desenfreada especulação imobiliária para banir as favelas de São Paulo

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Fortalecendo a desobediência

No sábado 28 de maio aconteceu a “Marcha da Liberdade” em SP. Uma resposta a violência policial e política contra a marcha pela legalização da maconha que acontecera na semana anterior. O abuso aconteceu graças a interpretação que dizer a palavra maconha durante a marcha configurava apologia ao crime, então a molecada ali era mais que criminosa, praticamente acontecia formação de quadrilha.

A articulação por uma resposta da sociedade culminou no encontro de pessoas para a “Marcha da Liberdade” as 14hs no vão livre do Masp. Faixas, flores em mão, o cordão da PM impedindo que a rua fosse fechada, o cordão  da PM esperando a marcha ser “liberada” pela justiça, a liberação da “Marcha pela Liberdade” desde que não houvesse a menção da palavra maconha. Aliás, liberar marcha pela liberdade foi a maior ironia que ouvi no dia.

Os cartazes pediam que as pessoas fossem às ruas. Pediam a legalização do aborto. Pediam pelos direitos dos gays e das mulheres. Incentivavam o uso da bicicleta, o exercício do livre pensamento. Pediam o fim da censura, pediam para Dilma parar a motosserra. Eram diversas bandeiras embaixo de um mesmo guarda-chuva. Isso, na minha opinião, não é falta de ideologia, é reflexo da existência fragmentada que existe hoje.

Uma causa maior parecia unir tudo. A idéia. O poder da idéia, da palavra. Lutar pela liberdade cerceada juridicamente. Ir a rua para mostrar sua existência e insatisfação. A mobilização não tinha liderança clara, o que as vezes causava ruído entre as palavras e gritos de guerra.  O coro pediu “Ei, Dilma, pára a motossera”, e pulou ao dizer “Quem não pula é polícia”, e chamou quem estava nas janelas “vem para a rua lutar contra a censura”.

Esbarro em vários grupos de amigos pelo caminho, todos entusiasmados em estar lá. O mais bacana ainda estava por vir. Uma turma encheu balões para soltar do alto do prédio quando a marcha dobrasse a paulista rumo a consolação.

Levamos um novo mundo em nossos corações.